Por Claudia Faria
Eu esperei vinte anos para escalar na Patagônia. E, quando finalmente decidi ir, percebi que a parte mais difícil não era a montanha, era deixar meu filho de 3 anos por dez dias, torcer para meu quadril não travar, e lidar com a pressão de realizar um sonho no pouco tempo que eu tinha. Era muito desejo acumulado. Muito medo escondido. E pouca margem para falhar. Essa mistura – culpa, sonho atrasado, corpo vulnerável e pressão silenciosa – foi o estopim da minha ansiedade de desempenho.
Ela chegou antes da montanha. Antes da trilha. Antes do Frey. Chegou no avião. No peito. No estômago. E me fez vomitar como se meu corpo tentasse expulsar o próprio medo. No avião. No aeroporto. Na rua de Bariloche. No translado.
Nenhum vírus sabe seu nome. Nenhuma intoxicação conhece sua história. Mas a ansiedade de desempenho sabe exatamente onde você guarda seus sonhos e aperta ali.
A verdade que ninguém admite
A ansiedade de desempenho aparece exatamente quando a gente mais quer acertar.
Quando você finalmente realiza um sonho antigo. Quando recebe uma chance que não pode desperdiçar. Quando volta a treinar depois de meses parada. Quando deixa o filho para viver algo seu. Quando precisa provar a si mesma que ainda é capaz.
A ansiedade não chega porque você está fraca. Ela chega porque aquilo importa demais.
Andrew Huberman explica que, para o cérebro, importância e ameaça são registradas no mesmo circuito. Ou seja: quando algo importa demais, o corpo reage como se estivesse em perigo. Foi isso que aconteceu comigo.
O peso invisível que eu carregava
Eu não estava indo apenas escalar.
Eu estava levando:
• vinte anos de sonho engavetado
• o medo de meu quadril travar por causa da artrose da gestação
• a culpa de deixar meu filho por tantos dias
• pouco tempo para escalar tudo que planejei
• a fama da aproximação do Frey: dura, longa, pesada
• a expectativa de reencontrar uma versão antiga de mim
Era mais peso do que qualquer mochila poderia comportar. E meu corpo fez aquilo que corpos fazem quando a mente insiste em ignorar o óbvio: colapsou.
Os sintomas da ansiedade de desempenho
A ansiedade não chega como pensamento. Ela chega como corpo:
• respiração curta
• peito fechado
• enjoo imediato
• náusea e vômito sem explicação
• taquicardia
• tontura
• foco turvo
• urgência sem motivo
• exaustão antes de começar
É o sistema nervoso em modo sobrevivência. É o que Jack Feldman chama de “o sequestro da respiração pelo medo”. E, quando a respiração é sequestrada, todo o resto desmorona junto. Quando o corpo trava, a vida trava junto.
A ansiedade de desempenho sabota:
• a escalada
• o treino
• o trabalho
• a criatividade
• as decisões
• o retorno após a maternidade
• o sonho que você finalmente decide viver
Não é sobre esporte. É sobre existir com muita responsabilidade e muito desejo ao mesmo tempo.
O momento em que pensei em desistir
Sentada na calçada fria de Bariloche, vomitando a seco, com o vento cortando meu rosto e o estômago revirado, eu pensei por cinco segundos honestos:
“Eu não vou conseguir.”
“Eu devia voltar para casa.”
“Eu não consigo mais sofrer assim.”
E foi ali que eu entendi: a montanha não pede coragem. A montanha pede presença. E presença não é mental. É fisiológica.
O protocolo de respiração que me salvou
Deitada quase apagando, recorri ao que ensino quando a ansiedade sobe para o estômago:
a respiração sibilante.
Ela acalma porque mexe no plexo solar também conhecido como plexo celíaco e reduz a resposta do sistema nervoso.
Faça assim:
1. Pressione levemente a língua atrás dos dentes.
2. Inspire pela boca como se estivesse succionando o ar por um canudinho.
3. Segure o ar por 3 a 5 segundos.
4. Exale devagar pelo nariz.
5. Repita 10 vezes.
O corpo desacelera. A náusea diminui. A mente volta. E a possibilidade reaparece. Eu não encontrei paz. Mas encontrei espaço. E, às vezes, espaço é tudo que precisamos para continuar.
A verdade final sobre a ansiedade de desempenho
A ansiedade de desempenho não é fraqueza. Não é falha. Não é falta de preparo. É só o corpo assustado pela grandeza do que você deseja.
E existe uma virada: quando você aprende a respirar, o medo perde força. Quando o corpo se acalma, a mente volta. Quando a mente volta, a performance aparece.
Eu vejo isso todos os dias nos meus alunos: a respiração certa diminui o medo
e amplia a potência. O corpo não teme fracassar. O corpo teme viver sem ar uma vida grande demais.
Respire. A montanha está lá. E o sonho, o seu, ainda está te esperando. Respire e Reaja Diferente.
Foto: Claudia Faria