Por Tathi Parmigiano
Existem ciclos na vida da mulher que são tão universais quanto complexos. Três deles — curiosamente marcados pela mesma letra — moldam profundamente nossa fisiologia: a puberdade, o puerpério e a peri/pós menopausa.
Cada um desses períodos redefine o corpo em níveis que vão desde a energia até a relação com o esporte. A puberdade nos coloca em potência. O puerpério nos coloca à prova. E a perimenopausa nos convida a reorganizar prioridades, estratégias e ritmos, tanto dentro quanto fora do esporte.
A diferença é que, enquanto os dois primeiros costumam ser acompanhados de expectativa e cuidado coletivo, a perimenopausa ainda é atravessada em silêncio por muitas mulheres. Silêncio esse que não combina com a realidade de tantas esportistas que seguem treinando, competindo, explorando montanhas, mares, trilhas e suas próprias fronteiras internas.
A sensação não deveria ser de perda, mas sim de transição, e transições merecem nome, contexto e cuidado.
A peri/pós menopausa é uma fase marcada por oscilações e queda progressiva de estradiol e progesterona, os hormônios que regem o organismo feminino. Para mulheres ativas essa queda hormonal significativa pode gerar:
• mudanças na termorregulação (sensação térmica mais intensa, fogachos)
• alterações de humor e motivação
• sono mais leve ou fragmentado
• mudanças na composição corporal
• perda de massa muscular
• sensação de recuperação mais lenta
• maior vulnerabilidade óssea e tendínea
Essas experiências não são “drama”, nem “exagero”, nem “idade batendo”. São respostas fisiológicas legítimas, documentadas em décadas de pesquisas sérias e atualizadas, e manejáveis com cuidado adequado.
Mulheres que se aventuram no esporte outdoor conhecem bem o impacto de um terreno que muda sem aviso: pedras soltas, inclinação inesperada, vento contrário.
Ninguém abandona a trilha por causa disso. O que fazemos é ajustar a passada, observar o ambiente e seguir.
A perimenopausa funciona da mesma forma: não é um limite, é uma mudança de terreno. É aqui que entram os novos Ps dessa fase: Paciência, Parceria e Perspectiva.
Paciência
Com o corpo, com o tempo, com a adaptação. A Paciência aqui não significa passividade. Significa reconhecer que o corpo está recalibrando seus marcadores internos, que a resposta a treinos pode variar e que isso não invalida sua potência. O corpo não está “desandando”; ele está se reorganizando.
Parceria
Com o cuidado certo, com profissionais confiáveis, consigo mesma. A Parceria é buscar acompanhamento qualificado, sem medo, sem vergonha e sem a sensação de que “não é grave o suficiente”. A gente entende o valor de ter uma boa equipe de saúde física e mental, boas orientações e suporte da sua equipe esportiva e de suas companheiras. A ginecologia e a psicologia do esporte existem justamente para traduzir essas mudanças e oferecer ferramentas individualizadas. Parceria também é reconhecer que ouvir o próprio corpo, e não brigar com ele, é uma forma de respeito.
Perspectiva
Olhar o todo, não apenas o momento. Perspectiva é saber que essa fase não marca o fim da vida esportiva. Pelo contrário, muitas mulheres encontram depois dos 40 e 50 anos seu período de maior consistência, maturidade, foco e profundidade no esporte. O corpo muda, sim, mas a sua história com ele também muda, e pode ser para melhor.
Perimenopausa não é fim de linha — é mudança de rota
É importante dizer com clareza e sem medo: a terapia hormonal (TH) não é milagre, não é atalho e, definitivamente, não é sinônimo de implantes hormonais. O cuidado sério e baseado em evidências está muito distante das promessas fáceis que circulam nas redes sociais.
A TH da menopausa é composta por tratamentos fisiológicos, seguros e individualizados, com doses controladas, vias adequadas e acompanhamento contínuo. E, embora não ofereça juventude eterna, ela oferece algo profundamente valioso: alívio real e consistente. Reduz de forma significativa os fogachos, melhora o sono, diminui a irritabilidade e suaviza a sensação de descompasso do corpo — promovendo um resgate da estabilidade fisiológica.
Muitas mulheres descrevem essa experiência não como um retorno ao que eram, mas como um reencontro com o que podem voltar a ser: mais presentes no treino, mais confortáveis na própria pele, mais inteiras.
A peri/pós menopausa não retira potência de ninguém. Ela apenas muda o ritmo, o relevo e a leitura de contexto. A puberdade te impulsionou, o puerpério te transformou e a perimenopausa pode te fortalecer de outras maneiras, mais profundas e mais conscientes.
Com Paciência, Parceria e Perspectiva, essa fase deixa de ser uma travessia solitária e vira um caminho sólido, possível e profundamente seu. Você continua pertencendo ao esporte, ao movimento, ao seu corpo e à sua história. A menopausa não reduz quem você é — ela redefine o mapa, mas não o seu destino.
Foto: Dudarev Mikhail / Shutterstock